O primeiro encontro Lucro X Sustentabilidade, realizado no Rio de Janeiro e organizado pelo Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, CEBDS, deixou a nítida impressão que os dois conceitos não são opostos. Ao contrário, são complementares. Debates e palestras entre representantes do setor público, de empresas e ONGs deixaram isso bem claro.
Aberto pelo presidente-executivo do CEBDS, Fernando Almeida, o evento reuniu a superintendente do BNDES, Yolanda Ramalho, o secretário do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, Carlos Minc, o diretor presidente da ArcelorMittal, José Armando campos, o diretor geral de relações corporativas da AMBEV, Milton Seligman, além de Jodie Thorpe, gerente para economias emergentes –SustainAbility e Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace.
Ao dar início aos trabalhos, Fernando Almeida fez questão de destacar que o ciclo 2008 tem o objetivo de levar a discussão sobre sustentabilidade a outras cidades do país, deixando a velha prática de manter os debates apenas restritos ao eixo Rio-São Paulo, e quebrar um pouco o caráter elitista, que sempre dominou as conversas sobre o assunto.
- Queremos levar essa discussão de maneira itinerante, descentralizada, a outras populações que talvez não tenham tanta informação a respeito - disse. E acrescentou:
- Hoje, fiquei mais feliz ainda porque ouvi de um colega estrangeiro que pela primeira vez ele via uma discussão como essa e toda essa mobilização em torno de uma pergunta fundamental: qual parcela do lucro das empresas deve ser investido na sustentabilidade?
Em seguida, Fernando Almeida agradeceu a presença de representantes da Caixa Econômica Federal, do BNDES e da Petrobras e, durante quatro horas, cada um dos palestrantes tentou responder a grande questão: como associar o lucro à idéia da sustentabilidade?
Sob mediação de Milton Seligman, foi iniciada a primeira rodada de discussão. Várias idéias surgiram em torno do tema, mas houve consenso em considerar que todos devem estar empenhados em garantir que o crescimento econômico não pode ser sustentado à base da degradação do meio ambiente. José Armando Campos, diretor presidente da ArcelorMittal, portanto representante do setor siderúrgico, reconhece essa preocupação.
- O setor siderúrgico é um dos mais preocupados com a questão da sustentabilidade. Cem por cento do aço podem ser reciclados. Queremos criar soluções para o aço no futuro. O aço é infinitamente reciclável, supera em muito o alumínio - afirmou. Campos frisou ainda a ênfase que sua empresa dá à valorização das pessoas que trabalham nela.
- Nossos empregados são nossos advogados, embaixadores e comunicadores, interagindo com nossas idéias em torno da sustentabilidade. Eles podem levar para fora a forma como trabalhamos. São os fundamentos de nosso recursos humanos que estendemos a nossos parceiros e contratados – disse Campos.
Yolanda Ramalho é partidária da mesma opinião. Por isso, revelou que todos os funcionários do BNDES têm cursos sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável.
- Desde 1976, ou seja, há 32 anos, que o banco vem caminhando nesse sentido. Hoje, temos a idéia do desenvolvimento com a preservação do meio ambiente impregnada. A responsabilidade corporativa para o BNDES é o objeto de nossa atuação - enfatizou. E completou:
- O Brasil pode se diferenciar por isso, promover a responsabilidade sócio-ambiental.
Carlos Minc, secretário do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, trouxe informações e novidades à mesa. Disse que o trabalho da Secretaria – suprimindo etapas no processo das licenças e criando nos municípios do interior a possibilidade de gerir a concessão de licenças para empresas de pequeno e médio porte – fez com que se desburocratizasse a questão.
- Hoje, eliminamos a burocracia e a corrupção nesta área. Em vez de ter de percorrer e passar por 23 carimbos para chegar à primeira pessoa que iria analisar o processo, tornamos tudo muito mais breve - afirmou.
Minc também demonstrou entusiasmo ao falar da Lei do ICMS verde. Por intermédio dela, os municípios passam a receber mais recursos na medida em que fiscalizam e incentivam as empresas a sustentar o desenvolvimento. O secretário também falou sobre o aproveitamento do óleo de cozinha na fabricação de biodiesel e de sabão em barra.
- O óleo menos ácido é utilizado pela indústria do biodiesel e o mais ácido para o sabão. Assim deixamos de poluir a Baía de Guanabara - completou.
Na segunda mesa, medida por Beatriz Bulhões, diretora do CEBDS, a gerente para economias emergentes da SustainAbility, Jodie Thorpe, também falou sobre inovações no uso e no reaproveitamento de matérias para novas fontes de energia renovável , sobretudo na Ásia.
Jodie Thorpe falou sobre o aproveitamento de resíduo orgânico para o biogás e para fertilizantes, citando empresas como a Jubilant Organosys Ltd e a Amanco Holding Inc. como bons exemplos a serem seguidos no sentido de encontrar pontos em comum entre sustentabilidade e negócios rentáveis.
- Elas tiveram sucesso porque enxergaram a questão da sustentabilidade da mesma forma como encararam seus negócios - afirmou.
É nesse sentido que pensa também o diretor de campanhas do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado. Para ele a questão dado desenvolvimento sustentável só está caminhando no País graças ao entendimento por parte do empresariado que o meio ambiente, que o desmatamento, que ocupar áreas e desmatar na Amazônia para pecuária e agroindústria criam uma imagem negativa para os seus produtos.
- Os jornais trazem notícias que um iceberg dez vezes maior que a cidade de São Paulo está se despregando na Antártida. Sabemos que temos de 10 a 20 anos pra fazer algo ou não haverá planeta no fim deste século. Continuar desmatando a serviço do desenvolvimento é dar um tiro no pé - disse. Marcelo Furtado complementou:
- Temos o compromisso de, num prazo de sete anos, termos um desmatamento zero na Amazônia. Há dinheiro para isso e só falta vontade política. Iniciativas como essa de organizar encontros como esse e colocar a discussão da sustentabilidade entre empresários, governos e Ongs só nos fazem acreditar que se pode. |