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Por que o lucro foi escolhido como tema para o primeiro encontro do Sustentável 2008?
R: Uma empresa com visão de futuro não pode se limitar apenas a atender os interesses de acionistas e investidores. Não se pode conceber uma empresa bem sucedida em sociedade falida.
Estou convencido disso olhando tanto pelo lado ético, como pelo lado pragmático. A história recente, principalmente a partir do pós-guerra, tem nos mostrado que o modelo concentrador de renda tem acelerado a perda dos serviços ambientais e o esgarçamento do tecido social. Os riscos socioambientais confirmam esta constatação.
É inadmissível e insustentável a desproporcional repartição de riqueza, seja ela no âmbito global, seja no âmbito regional. A sustentabilidade, como conceito integrador, não pode admitir altos lucros e salários astronômicos descolados do restante da sociedade.
O que deve ser discutido no encontro?
R: Espero que sejamos capazes de aprofundar de forma produtiva este grande dilema contido na relação lucro e competitividade. Precisamos inserir o “S” de sustentabilidade na equação para se chegar ao lucro.
Conceito de lucro deve continuar existindo, mas dentro de um novo paradigma. A correta implantação dos conceitos de sustentabilidade tem efeito multiplicador na valorização dos ativos intangíveis das empresas. E hoje sabemos que marca, reputação, capacidade de relacionamento com stakeholders respondem por pelo menos 75% dos ativos de uma empresa.
É possível aliar sustentabilidade e lucratividade?
R: Não é só possível, como necessário. A lucratividade faz parte da dimensão econômica de uma empresa, seja ela de que atividade for. Mas não pode estar desconectada das dimensões social e ambiental. Caso contrário, a empresa não sobreviverá, mesmo que seja altamente lucrativa no curto prazo.
O desempenho das empresas que conseguem estar no grupo seleto do Índice Dow Jones de Sustentabilidade, de Nova York é um exemplo bem significativo. Os balanços indicam que a rentabilidade dessas empresas é pelo menos 20% superior em relação as que permanecem mais presas ao modelo tradicional. Essa performance está se repetindo também no Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa.
Para realmente encontrarmos o ponto de equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e práticas sustentáveis, a visão do empresariado sobre lucro e crescimento precisa mudar?
R: Precisa mudar e já está mudando, não na escala e na velocidade necessárias. As empresas precisam estar preparadas, o quanto antes, para imprimir uma ruptura com seus modelos de negócios. Precisam entender que o tradicional relacionamento exclusivo com acionistas e investidores já está superado.
As empresas fazem parte hoje de um amplo arco de relacionamento, que influencia suas atividades e também é influenciado pelas atividades das empresas. O chamado desenvolvimento sustentável só acontecerá no longo prazo caso a empresa (e a sociedade também) consiga incorporar, de forma efetiva e transparente, as dimensões social e ambiental.
O que deve mudar na cultura empresarial no Brasil e no mundo para que os negócios passem de "vilões da sustentabilidade" para líderes do movimento pela sustentabilidade?
R: Esta rotulação, a meu ver, é injusta. Os vilões que dificultam, por ignorância ou cumplicidade com interesses anti-éticos, estão espalhados por todos os setores. Há correntes do setor empresarial que devem ser tratados como verdadeiros vilões.
É o caso de alguns do segmento do agronegócio que ganham dinheiro fácil desmatando criminosamente a Amazônia para expandir o plantio de soja ou a pecuária. Mas há inúmeras empresas engajadas na liderança desse processo de construção de um novo modelo de desenvolvimento. Um exemplo recente é o Pacto de Ação em Defesa do Clima, no qual grandes empresas, como Alcoa, Aracruz, EcoSecurities, Furnas, Petrobras, Souza Cruz, Shell e Votorantim, e a sociedade civil, assumem publicamente compromissos voluntários com a redução de emissões de CO2.
Da mesma forma, há representantes do setor público que cometem falcatruas para atender interesses particulares e há outros extremamente sérios e comprometidos com a ética e a justiça social. Tenho defendido a tese de que o setor empresarial, por sua disciplina, capacidade de investimento, é o mais capacitado para impulsionar esse processo de mudanças. Contudo, só seremos capazes de construir um novo modelo de desenvolvimento com a integração de todos os setores-chaves da sociedade – empresas, governos e a sociedade civil organizada.
Qual caminho deve ganhar força nos próximos anos: buscar a sustentabilidade em ações lucrativas ou buscar a lucratividade em ações sustentáveis?
R: No meu livro “Os desafios da sustentabilidade – uma ruptura urgente”, prego a necessidade de uma ruptura estruturada e articulada para criação de um novo modelo de negócios e um novo padrão de desenvolvimento. E, nesse processo, os conceitos de sustentabilidade e lucratividade (este segundo dentro de novos parâmetros) se completam e se harmonizam.
Prego por exemplo que as empresas procurem a “zona chave”, na qual ficam à frente das exigências da legislação socioambiental e se mantenham no patamar de lucratividade.
Em seu artigo para a revista "Idéia Socioambiental", o senhor deixa clara a necessidade de criarmos novos modelos de negócios e padrão de desenvolvimento. Como devem ser estruturados os novos modelos? Estaríamos revendo a forma de funcionamento do capitalismo?
R: O conceito de sustentabilidade é revolucionário. E, como tal, exige mudanças radicais. Defendo a posição de que as empresas devem sair da área de conforto e passem a fazer negócios com a base da pirâmide social. Nas regiões mais pobres, os investimentos chegam apenas aos “bolsões” de riqueza, muitas vezes de forma ambientalmente irresponsável e, sempre, de forma socialmente excludente. Essa prática histórica explica o cenário de desigualdade.
Entre 1950 e 2005, o valor do Produto Mundial Bruto subiu nove vezes, passando de US$ 7 trilhões para US$ 60 trilhões. E há ainda hoje 1,1 bilhão de habitantes vivendo com menos de US$ 1 por dia. Pontualmente, empresas têm demonstrado que é possível fazer negócios com as camadas marginalizadas, com benefícios para todos. Contudo, os dramáticos desafios sociais e ambientais que temos pela frente exigem mais do que exemplos pontuais.
Em linhas gerais, qual foi sua avaliação do encontro?
R: Como uma participação brilhante de todos os palestrantes e um interesse surpreendente do público que lotou o auditório do RB1, no Rio, fomos capazes
de aprofundar de forma produtiva este grande dilema contido na relação lucro e competitividade. Ficou comprovado que devemos inserir o "S" de sustentabilidade na equação para se chegar ao lucro.
Conceito de lucro deve continuar existindo, mas dentro de um novo paradigma. A correta implantação dos conceitos de sustentabilidade tem efeito multiplicador na valorização dos ativos intangíveis das empresas. E hoje sabemos que marca, reputação, capacidade de relacionamento com stakeholders respondem por pelo menos 75% dos ativos de uma empresa.
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